quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Especulando no côncavo e convexo de uma nova Diocese do Recôncavo baiano. Padre José Raimundo

Jutay Reboucas     10:18     No comments





Especulando no côncavo e convexo de uma nova Diocese do Recôncavo baiano.
Eu ainda pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Conceição do Almeida quando, fomos sondados sobre a eventual possibilidade de pertencermos a uma futura Diocese do Recôncavo, ainda guia a Sede metropolitana, o cardeal Moreira Neves. Hoje aquela que era uma especulação se tornou realidade. A Diocese de Amargosa findou por não ceder nada à nova que tem por seede a cidade de Cruz das Almas. Nada mesmo? Há coisas que para serem vistas precisam ser “especuladas”.
Especular tem sua raiz na palavra latina speculum: espelho. Há certas coisas que, para serem vistas bem, precisa-se de um espelho. É o caso dos dentistas que usam um espelho côncavo para enxergarem cáries escondidas que não se enxerga a olho nu, a forma côncava do espelho possibilita a visualização do dente de que se aproxima, aumentando o campo visual. Já que Diocese de Cruz das Almas é do Recôncavo, quero fazer de minha alma um espelho côncavo para aproximar-me do fato de sua criação e ampliar minha visão das coisas.
Quero afastar-me da data de 22 de novembro de 2017, quando ela é criada e aproximar-me do dia 9 de janeiro de 1964, quando na cidade de Jequié nasce o menino Antônio Tourinho Neto, primeiro bispo de Cruz das Almas. A minha aproximação me faz ver que nasceu em uma cidade pertencente à Diocese de Amargosa, somente em 1978, Dom Tourinho era um adolescente foi criada e instalada a Diocese de Jequié. Na Igreja Particular de Amargosa este bispo foi iniciado na fé pelo Sacramento do Batismo, sendo integrado no Povo de Deus (Λαος του Θεού),  λαος (laos) é a palavra grega que significa povo, dela deriva o termo leigo, de onde o vocábulo Laicado, para falar de todos os que pertencem ao Povo de Deus.
No próximo Domingo de 26 de Novembro, Solenidade de Cristo Rei se inicia o Ano Nacional do Laicado. Especulando, então, eu vejo que o novo bispo de Cruz das Almas recebeu a vida divina que brota do seio da Trindade no meio da Diocese de Amargosa, fez parte de nós, então podemos dizer que demos algo à Diocese do Recôncavo, não do nosso território, mas da nossa história, da nossa tradição de fé. Segundo o Papa Francisco na Evangelii Gaudium um princípio importante para “progredir na construção de um povo: o tempo é superior ao espaço” (EG 222). Se nada do território da Diocese de da Amargosa passou à novel Diocese de Cruz das Almas, ela se doa, na linha da fé, à sua mais nova vizinha geográfica nos 14 anos de jovem leigo do seu primeiro Bispo. Seja-me permitido dizer: a Sinergia da Liturgia supera a territorialidade da geografia. O primeiro bispo de Cruz das Almas nunca pertenceu ao Presbitério de Amargosa, mas foi contado entre os membros do Povo de Deus da nossa Diocese desde 1964 até 1978. Quanta experiência se faz em 14 anos!
Na nossa Diocese ele recebe o nome de cristão do qual se gloriará diante do Rei do Universo. Ser bispo não é um cargo, uma carga (sarcina episcopatus), como gostava de dizer o santo bispo de Hipona que por ocasião do aniversário de sua ordenação episcopal assim se dirige ao povo em sua pregação: Desde que este encargo, do qual tenho de dar apertadas contas, me foi posto sobre os ombros, sempre me perturba a preocupação com esta dignidade. Que se há de temer neste cargo, a não ser que mais nos agrade aquilo que é arriscado para nossa honra do que aquilo que é frutuoso para vossa salvação? Aterroriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou bispo; convosco, sou cristão. Aquele é nome do ofício recebido; este, da graça; aquele, do perigo; este, da salvação” (Sermo 340,1)[1].
Continuando a especular, eu penso quantas vezes, o novo bispo de Cruz das Almas participou em celebrações presididas pelos bispos de Amargosa, Dom Florêncio e Dom Alair, durante sua infância e Adolescência, sem nunca imaginar que estava diante do espelho do seu futuro. Igualmente aqueles dois santos e venerandos bispos não podiam especular que estavam diante de um futuro sucessor dos apóstolos em potencia. Vem-me à mente o mesmo santo Agostinho que em um sermão cogitava: Eu bispo falo a leigos, mas como faço para saber a quantos futuros bispos estou falando ?[2]. Eram pastores pelo Pão da Palavra, formando o coração de um futuro pastor.
Quanta responsabilidade se deve ter diante dos Leigos, ou seja, diante do Povo Santo de Deus que marcha rumo aos Céus e tem por vocação ser sal da terra e luz do mundo na Sociedade e no interior da própria Igreja. Alegre-se o Povo de Deus da Diocese de Amargosa por ter gerado na comunhão da fé este filho para a Igreja. Alegria que se experimenta também na vida de Dom Frei Rubival Cabral Brito, bispo de Grajaú no Maranhão que nasceu na cidade de Jaguaquara no dia 21 de julho de 1969, quando esta ainda pertencia à Diocese de Amargosa. Dom Rubival também viveu parte de sua vida de leigo na comunhão de nossa Igreja diocesana de Amargosa.
A nova Diocese do Recôncavo deixou de ser uma especulação para se tornar realidade que ela seja fiel a sua missão de ser “uma porção do povo de Deus confiada ao pastoreio do bispo com a cooperação do presbitério, de modo tal que, unindo-se ela a seu pastor e, pelo Evangelho e pela eucaristia, reunida por ele no Espírito Santo, constitua uma Igreja particular, na qual está verdadeiramente presente e operante a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica[3].
Se para especular precisei em algum momento de um espelho côncavo para de perto ver algumas coisas bem, posso dizer que, também, precisei do espelho convexo para vê-las melhor: Como acontece com o espelho retrovisor. Com o espelho convexo se olhar para trás para ver a estrada que fica para trás. Ao percorrer uma estrada, é necessário saber aonde se quer e se deve chegar, mas não menos importante é estar atento a todo o percurso, ao fluxo do trânsito. Que não falte ao pastor da nova Diocese situada no Recôncavo da Bahia, cuja sede está às margens da BR 101, uma visão côncava e convexa da realidade nova que deve ajudar a forjar.



[1] Cf. Aug. Sermo 340, 1: Vobis enim sum episcopus, vobiscum sum Christianus. Illud est nomen suscepti officii, hoc gratiae; illud periculi est, hoc salutis. Denique tamquam in mari magno illius actionis tempestate iactamur; sed recolentes cuius sanguine redempti fuerimus, velut portum securitatis tranquillitate huius cogitationis intramus; et in hoc proprio laborantes officio, in communi requiescimus beneficio. Si ergo plus me delectat, quod vobiscum emptus sum, quam quod vobis praepositus sum, tunc, ut Dominus praecepit, ero abundantius vester servus, ne ingratus sim pretio, quo vester merui esse conservus.
[2] Id. Sermo 101, 4: Episcopus laicis loquor: sed inde scio quam multis episcopis futuris loquor.
[3]Código de Direito Canônico, 369

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